
Então, Madonna, o que vais fazer quando fores mais velha?
Mundo: A idade de Madonna
16.08.2008
Fonte: The Washington Post / Hank Stuever
Assim que fazemos 35 anos, passa a ser da idade que se fala quando se fala de nós, disse ela a uma revista, em 2006. Hoje ela não faz 35: faz 50. Não temos outro assunto a não ser este: estamos a envelhecer com Madonna
Pelo amor de Deus, Madonna, vais fazer 50 anos!
Disseste muitas vezes que nunca lês jornais nem revistas, apesar de estares sempre a aparecer em jornais e revistas - por isso, de certa forma, isto é um desperdício de espaço e energia.
Na verdade, ela não precisa de estar presente para falarmos dela. Este sempre foi o elemento-chave da forma como Madonna passou metade da sua vida, deliberadamente surda no meio do burburinho. O facto de Madonna fazer hoje 50 anos não tem a ver com Madonna. Como sempre, tem a ver com o resto de todos nós, constantemente apanhados a olhar para o que quer que seja que Madonna está agora a fazer, mesmo quando o que quer que seja que Madonna está a fazer não seja mais do que envelhecer.
"Então, Madonna, o que vais fazer quando fores mais velha? Continuarás em forma aos 50 anos e continuarás a subir ao palco e a abanar o teu traseiro, como a Cher? O que é que vai acontecer quando o teu corpo já não aguentar?"
"Uso a cabeça."
Madonna à Vanity Fair, Outubro de 1992
Seguem-se cerca de 50 pensamentos desconexos (como velas num bolo de aniversário, se quiserem) para e acerca da marca do meio século de Madonna. Começamos pelo começo, não com a verdadeira data do seu nascimento (16 de Agosto de 1958), mas com a entrada dela na consciência colectiva.
Numa quente e húmida manhã de Agosto há 1,3 ziliões de anos, algumas raparigas chegaram diferentes às aulas de preparação para o regresso à escola preparatória, com o cabelo cortado mesmo abaixo do pescoço - desgrenhado, oxigenado, listado, com as raízes à mostra e apanhado com elásticos rascas. Tinham relógios de plástico preto e pulseiras de borracha nos pulsos magrinhos. Soutiens negros. Apenas algumas raparigas, não todas. Madonna apareceu no momento exacto, da forma perfeita. O padre René voltou a explicar quais eram as regras do vestuário, para aquelas que estavam esquecidas.
Terços, por exemplo. Os terços não são para ser usados à volta do pescoço, perceberam bem?
Não perceberam lá muito bem. O barco de Madonna já tinha zarpado. Mesmo os mais amargos de entre nós - os fãs dos Led Zeppelin, os pedrados, os que faziam luta livre, os cínicos, os editores de jornais escolares - já estavam no barco de Madonna, e nem sabíamos que tínhamos subido a bordo.
Era necessário ignorar muitas boas práticas musicais para acompanhar Madonna para onde ela se dirigia - ouvindo agora, era directamente de volta ao "disco". Tínhamos que ignorar os críticos profissionais e os intelectuais das aulas de arte que usavam ténis "Converse All Star", tinham álbuns dos REM e do Elvis Costello, e nos imploravam que não ouvíssemos aquela porcaria. As pessoas que odiavam a Madonna nunca perceberam que alguns de nós só gostávamos dela para que as pessoas que não gostavam dela ficassem ainda mais apopléticas perante o facto de ela estar a ficar cada vez mais famosa.
Para irmos em consciência, tínhamos que ser inconscientes. Numa sexta-feira à noite, estacionados junto ao lago, os sons de Lucky star saíam em estéreo das colunas de um Chevrolet Camaro, de um Honda Prelude ou de um Volkswagen Scirocco, e três ou quatro pessoas dançavam exactamente como Madonna e os bailarinos dela faziam no teledisco, passo por passo. Que estas corajosas almas não tenham sido espancadas pelos bêbados da equipa de futebol americano, e que a cassete não tenha sido arrancada e destruída, foi um sinal: Madonna já tinha ultrapassado a prova.
À primeira vista, a cena Madonna trouxe imensas coisas boas: roupas velhas e rasgadas, lojas de segunda mão e antiguidades, os óculos de sol das nossas avozinhas, jóias de época, gabardinas - aquele ar despreocupado de Exército da Salvação que, como qualquer estudante de moda e cultura sério vos pode assegurar, Madonna tinha roubado a toda a gente. A cena Madonna chegou com directivas claras: exprime-te, sê tu mesmo, o vencedor fica com tudo. Alguns de nós começaram a ir a uma discoteca, muito escura, que não servia bebidas alcoólicas mas servia remisturas de temas de dança que nunca terminavam mas simplesmente se colavam uns aos outros: New Order, Shriekback, Belouis Some, The Smiths. O pessoal dizia que não era um clube "gay", que era "bi". Em 1985, era uma distinção muito importante.
Começava uma canção da Madonna ("Only when I'm dancin' can I feel this free / At night, I lock the door, where no one else can see"), metade dos presentes abandonava a pista de dança, numa forma de protesto muito desafiadora e snobe. Os que ficaram ainda lá estão.
"Apesar de ter os meus medos, penso sinceramente que vou viver até uma idade muito avançada. Se o que já passei até aqui ainda não me matou, então nada o fará. É esta a [censurada] da minha opinião." Madonna à Vogue, Outubro de 1996
Ninguém acreditava que Madonna durasse. Nenhuma história sobre ela se esquece de referir esse facto, a improbabilidade do sucesso dela, o fascinante triunfo da mais completa mediocridade. Em minha casa mantemos um arquivo secreto de revista que fizeram capa com Madonna. É notável como muitas delas apresentam títulos como "a nova Madonna", "o novo look de Madonna" e "Madonna hoje".
Costumava preocupar-me com a possibilidade de Madonna morrer subitamente e eu ter que escrever à pressa algo inteligente no estilo de um obituário. Agora acredito que Madonna vai viver até aos 119 anos, e já não vai haver ninguém para escrever sobre ela quando morrer, a não ser o editor de um jornal online sobre personalidades obscuras.
Há 20 anos, as académicas feministas ficaram doidas quando tentaram desconstruí-la, interpretá-la como se interpreta um texto. As torres de marfim estremeceram à medida que os Estudos Sobre Madonna se preparavam para passar a ser uma cadeira no departamento de semiótica da Universidade de Whackadoodle. Madonna, teorizavam as académicas universitárias, era (é?) a grande libertadora, mostrando que o sexo era uma irrelevância e logo a seguir que o sexo era a coisa mais relevante, ibid e op. cit.. As dissertações cresciam como cogumelos e acabavam no lixo da academia. Algumas foram compiladas num volume intitulado The Madonna Connection: Representational Politics, Subcultural Identities and Cultural Theory, e por aí fora, até que finalmente não havia mais nada para dizer. Eram apenas discos, eram apenas concertos, era apenas uma mulher do Michigan que detestava a escola católica.
Depois vieram os artigos na Forbes, na Business Week, na Fortune: Madonna como a extremamente sagaz presidente do conselho de administração de Ela Própria, Lda, cálculos sobre cálculos.
Depois veio o Ladie's Home Journal, com o ângulo "Madonna e a Criança" - e depois outra criança, e depois até África para mais outra criança. Madonna como escudo informático humano, protegendo os seus filhos de, imagine-se, gelados e cultura pop: "Não comemos lacticínios, somos uma casa sem TV nem lacticínios", afirmou ela ao Ladie's Home Journal em 2005. Se os filhos dela se portam bem durante a semana, podem ver um DVD no domingo à tarde (e se se portarem mesmo, mesmo bem, o filme não é Quem é Aquela Rapariga?).
Desde que a Cabala recompôs o seu equilíbrio espiritual por volta dos 40 anos, Madonna tornou-se naquele tipo de velhinha insuportável que adora dizer-nos o que pensar. É como aquelas mulheres que encontramos nos grupos de teatro amador ou nos mercados de produtos biológicos, só que ela vale 600 milhões de dólares [403 milhões de euros]. Há uns anos pagámos 200 dólares [em Lisboa custaram entre 61 e 151 euros] para ver um concerto de Madonna. Ela entrou e cantou um punhado dos seus êxitos - Vogue, Like a prayer. Depois cantou Imagine, de John Lennon, quase atonalmente. "Por favor, ouçam bem as palavras desta canção", ordenou-nos. "Temos de mudar o mundo." Disse isto como se os espectadores nunca tivessem ouvido Imagine ou reflectido sobre a letra. Quando damos o nosso dinheiro a Madonna, o que estamos a comprar é uma emocionante oportunidade de nos expormos à sua audácia.
Vocês têm que me ouvir.
Temos que mudar o planeta, juntos, cada um de nós.
Tenho que ir para o meu jacto privado.
Voa, Terra-mãe, voa.
"Mesmo quando era pequena, eu já sabia que queria que todo o mundo soubesse quem eu era, que me amasse e que fosse afectado por mim." Madonna à People, 13 de Maio de 1985
Duas em três não é mau. Todos sabemos quem ela é, e todos somos todos afectados por ela (sim, somos). O amor é a parte mais difícil. Ela queria ser amada? Madonna é o tipo de pessoa que temos de odiar para podermos amar. No Mundo Madonna, escarnecer é uma experiência de valor acrescentado associada à condição de fã. Basta olhar para um fã de Madonna a ouvir um novo disco de Madonna pela primeira vez. Existe um imediato desprezo e um imediato fascínio. Passamos uma semana a dizer a todos os nossos amigos quão mau o novo álbum é, que grande desapontamento, e uma semana depois decidimos por magia que gostamos dele. As novas canções ocupam o seu lugar numa galeria que se estende pelos 25 anos de qualquer sócioo medianamente empenhado deste ginásio.
Quando nesta Primavera Madonna editou o seu êxito em dueto com Justin Timberlake, detestei-o tanto que não tive outra hipótese se não adorá-lo - uma habilidade que aperfeiçoei com a edição de todos os seus álbuns de originais, bandas sonoras, gravações ao vivo e colectâneas de êxitos. Agora ouço essa canção na máquina de ginástica onde ando às voltas com Madonna e nunca vou a lado nenhum. Não estou totalmente certo da letra, mas acho que é qualquer coisa como:
Madonna: Estou a sentir-me velha, faz sexo comigo.
Justin: Estou nessa. Que é que tens? Que é que queres?
Madonna: Gostava de rápido, depois devagar, aí em baixo, nesse lugar.
Justin: Onde, miúda?
Madonna: É aí mesmo. Não, aí. Sim, não! Aí, espera - não, aí. Tiquetaque, tiquetaque!
Justin: Oh, salvem o mundo! Salvem o mundo!
Ou qualquer coisa desse género.
Verão horribilis! Será que está a gozar as suas derradeiras chamadas de primeira página, logo ela que achava que nenhuma publicidade é negativa? Parece que a história já não está sob o controlo de Madonna (a não ser que esteja: há a possibilidade de que ela agora coordenar a sua própria publicidade "negativa").
Os boatos (sempre desmentidos) acerca de um iminente divórcio do seu segundo marido, Guy Ritchie, em que ambas as partes afirmavam (e também desmentiam) que estavam a dar instruções aos respectivos advogados. Notícias de Madonna, o demónio, acusada (falsamente, segundo a agente de Madonna) de tentar separar o jogador de basebol Alex Rodriguez da mulher e do bebé recém-nascido com a promessa de iluminação espiritual. Notícias sobre o livro revelador do irmão mais novo, Life With My Sister Madonna, que atingiu o segundo lugar na tabela de vendas do New York Times (um resumo: ela sempre foi uma vocês-sabem-o-quê, mesmo quando tinha apenas cinco anos, especialmente quando tinha 17, e mais ainda quando tinha 38; ela ainda lhe deve por todos aqueles trabalhos de decoração de interiores que ele, qual escravo, aceitou fazer-lhe; ela é uma vocês-sabem-o-quê; ele não lhe deu um bom quarto no castelo escocês onde se casou; ela propositadamente não lhe falou do encontro de oração da Cabala em casa de Demi Moore; oh, o pesadelo que é conhecê-la tão bem).
Um dos maiores fãs de Madonna que eu conheço diz que parou de ler por volta da página 22, porque havia a possibilidade de o livro ser demasiado verdadeiro e, ainda pior do que isso, demasiado banal. Tem fotografias de Madonna em adolescente, com um vestido que a madrasta lhe fez. Tem fotografias do dia de Acção de Graças em casa dos Ciccone. É devastadoramente não mitológico.
"Ouve, assim que fazemos 35 anos, a nossa idade passa a ser a primeira frase de qualquer coisa que escrevem sobre nós."
Madonna à Out, Abril de 2006
Passa a ser também a última frase, minha querida.
Há coisa de uma semana, apareceram aquelas imagens de Madonna com uma cara de morte, saindo da sua aula de ioga em Londres, sem maquilhagem. Nessas imagens, ela está macilenta e mais bizarra do que o seu bizarro normal, com as maçãs do rosto esculpidas à faca e aquelas veias palpitantes a serpentear acima e abaixo pelos tendões daqueles braços que já viram muita disciplina mística. O mundo olha e olha de novo para essas fotografias. Cada revista nos escaparates dos supermercados parece desesperadamente à procura de costuras: "Madonna - O que aconteceu à cara dela?"
Os programas de fofocas de Hollywood também fazem essa pergunta: o que é que está errado, o que é? Chamaram-se especialistas, fizeram-se gráficos, e ninguém parece dizer: "Bem, ela tem 50 anos, sabiam? Qualquer dia morre. Morremos todos".
Quando ela chegar ao paraíso, o que é que o DJ vai estar a passar? Ray of light?
Talvez, se formos um fã-antifã de Madonna, cheguemos lá e ouçamos os sintetizadores do início de Lucky star, e seja de novo uma sexta-feira à noite junto ao lago, e seja de novo 1980 e qualquer coisa, e volte tudo a acontecer uma e outra vez.
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